• Facebook e a nossa vida


    Facebook é um espaço virtual onde todos falam, mas quase ninguém conversa. O que cada um compartilha é para qualquer pessoa, e ao mesmo tempo para ninguém.

    Na maior parte do tempo, o auge da interação entre as pessoas são variações entre curtidas, compartilhamentos e comentários triviais.

    Logo após fazer o cadastro, somos incentivados a adicionar como "amigos" nossos parentes, colegas de serviço, antigos conhecidos e até pessoas que conversamos apenas uma vez. Feito isso, passamos a compartilhar o que pensamos, o que fazemos, onde estudamos e trabalhamos, nossas fotos pessoais em diversas poses e lugares, sozinhos ou acompanhados, em momentos públicos e privados.

    O que publicamos é "avaliado" pelos "amigos" por meio de curtidas e comentários. Para que nos vejam com "bons olhos" e sermos bem avaliados, nos mostramos sempre felizes, cultos e realizados, mantendo um "perfil" da maneira como queremos ser vistos pelos outros, ou melhor, como seremos "bem vistos" aos olhares alheios.

    Compartilhamos tudo o que vivemos com todos: as músicas que gostamos, nossos filmes favoritos, nossos hobbies, os lugares que conhecemos, as pessoas que admiramos, etc. Nossa concepção do que é público e do que é privado já não é a mesma, antes comentávamos sobre nossas experiências e mostrávamos nossas fotos para pessoas próximas, que tínhamos intimidade. Hoje, compartilhamos com qualquer um, e ao mesmo tempo com ninguém em especial.

    Tem vezes que paro e penso, para que estamos fazendo tudo isso? O que nos fez sentir tão solitários a ponto de compartilhar boa parte de nossas vidas por meio de uma tela de computador ou celular para qualquer pessoa, e cada vez menos nos encontramos pessoalmente com um amigo para conversar sobre a vida de cada um e contar as novidades?

    Se tudo o que fazemos já foi "compartilhado", o que teremos para conversar pessoalmente? Todos já sabem qual o meu trabalho atual, já viram as fotos de minha esposa e filhos, do meu último aniversário, as fotos de meus pais, os lugares que tenho frequentado, o que tenho tido de refeição, tudo já foi visto e "curtido".

    Cada ano que passa, quando pergunto para amigos e conhecidos como vão, escuto cada vez mais a mesma resposta "na correria". Penso, que correria? O que nos faz "correr" todo o tempo? Do que estamos correndo? Corremos para nos sentar em frente a uma máquina e enviar as fotos do que almoçamos, ou ficar rolando a linha do tempo e ver as notícias da vida dos "amigos", opinando publicamente sobre cada coisa que vemos, respondendo questionários e compartilhando resultados para mostrar o quanto é interessante a imagem que criamos de nós mesmos?

    Será que viver se tornou tão antigo e fora de moda, que preferimos mostrar o que fazemos do que fazer, preferimos as "curtidas" e "comentários" do que nos encontrar com amigos e curtir o encontro? Por quanto tempo ainda vamos passar compartilhando imagens de como queremos ser vistos e tornando nossa vida cada vez mais pública? O que estamos fazendo com nós mesmos e com nossas relações? Para qual direção estamos correndo?


    Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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