• Psicologia: ciência ou filosofia?


    Muitos psicólogos e estudantes de psicologia comemoram com orgulho o fato da Psicologia ter se tornado uma ciência "independente" no final do século XIX, inclusive dizendo que ela se "libertou" da Filosofia. Mas será isso tão merecedor de orgulho? Que tal refletirmos um pouco a respeito?

    Antes de qualquer coisa, a psicologia nunca foi e nunca será uma ciência independente, pois trabalha em relação com saberes de outras ciências, como a Sociologia, a Antropologia, a Fisiologia, a Neurologia, entre tantas outras áreas, inclusive a Filosofia! Não há como estudar psicologia sem conhecer essas outras áreas de estudo.

    Outro ponto, é quando dizem que a psicologia se "libertou" da Filosofia, como se ela antes estivesse como "prisioneira" da Filosofia, enquanto que, no curso da história da humanidade e do conhecimento humano, as questões "psicológicas" foram iniciadas simplesmente pelos filósofos. Portanto, o mais coerente seria dizer que a psicologia se iniciou na filosofia, e depois se inclinou para uma tendência mais científica.

    Essa tendência científica teve muitas consequências, algumas boas e outras nem tanto. O método científico, no final do século XIX, era o empirista e positivista, se baseavam na observação, registro, análise e medição. Isso gerou uma mudança nas questões psicológicas, que antes eram como "-O significa ser humano?" ou "-Como se constitui a identidade de uma pessoa?" Se transformando em em questões estritamente objetivas, como "-O que gera um certo tipo de comportamento ou reação?" ou "-Qual o QI considerado adequado para uma pessoa normal?"

    Com a transformação da Psicologia em ciência, as questões, o foco e os objetivos mudaram. Enquanto conjunta com a Filosofia, sua busca era compreender o ser humano e seus diferentes modos de ser, porém com a ciência seu foco passou a ser conhecer o funcionamento do ser humano para explicar, normatizar e controlar seus modos de ser.

    Essas mudanças fizeram ocorrer implicações éticas muito graves, que em poucos momentos são levados em consideração. Uma delas é o conceito de ser humano, o respeito e a consideração com relação à sua liberdade existencial, foram deixados de lado em favor de um olhar mais técnico e objetivo sobre o ser humano, intencionando seu controle.

    As abordagens psicológicas científicas atuam com o entendimento de que o tratamento psicológico seja objetivo e direcionado. Cada "doença" psíquica é avaliada com base num manual técnico, sendo tratada por meio de uma metodologia específica, com vistas a normatizar os indivíduos. Mas o que nunca se questiona é o caráter dessa normatização.

    A ciência é uma atividade prática, porém sem a filosofia ela se torna "cega". O papel da filosofia é justamente de questionar sobre o trabalho da ciência, seus paradigmas e consequências. Acredito que não podemos sair oferecendo tratamento psicológico às pessoas sem saber bem o propósito desses métodos, e menos ainda, sem saber como são essas pessoas, e o que para elas seja "saudável".

    Por essas e outras questões, acredito que seja urgente e necessário rever o modo como a ciência psicológica analisa e trata as pessoas, de modo a possibilitar uma prática mais respeitosa, valorizando a dignidade e a autonomia de cada indivíduo, buscando ampliando suas potencialidades, ao invés de encaixar este em modos de ser previamente definidos, tidos por "bons" e/ou "adequados".

    Um grande equívoco da maioria dos livros sobre a História da Psicologia, bem como o de muitos professores de Psicologia, é dizerem que a Psicologia surgiu no final do século XIX com o laboratório de Wündt, quando se "libertou" das "amarras" da filosofia e se dedicou a ciência positivista.

    A história da psicologia começa bem antes, desde o século VI a.C, na Grécia Antiga, já haviam filósofos e pensadores que se questionavam sobre a existência humana e as dores de existir. A psicologia científica parece negar todo o desenvolvimento do estudo da psicologia na filosofia, desmerecendo suas questões por não serem "medidas em laboratório".

    Temos muito o que conhecer e aprender sobre a história da Psicologia se recorrermos aos livros de história da Filosofia, há muita sabedoria que foi "excomungada" pela ditadura da ciência, onde podemos aprender e rever o que temos por psicologia, e quem sabe traçar uma nova perspectiva sobre a história da filosofia.
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